No uso comum da linguagem, a gente costuma chamar de desejo aquilo que, para a psicanálise, estaria mais próximo da vontade ou da meta: mudar de trabalho, iniciar uma terapia, trocar de cidade. São coisas que cabem numa lista, que podem ser planejadas, organizadas, executadas.
Para Freud e, depois, para Lacan, o desejo é outra coisa. Ele não se reduz a objetivos claros, daqueles que a gente anota no caderno. O desejo aparece justamente no que insiste, retorna, atravessa os sintomas, as escolhas amorosas, os lapsos, os sonhos. Enquanto a vontade se estrutura em planos, o desejo costuma surgir exatamente onde esses planos falham.
A psicanálise não entende o desejo como algo que nasce da completude, mas da experiência da falta. Não desejamos porque “está tudo resolvido e agora queremos mais”, mas porque algo em nós permanece, de forma irredutível, incompleto. Por isso, nenhum objeto — por mais promissor que pareça — o novo ano, o novo relacionamento, o novo projeto — dá conta de fechar essa falta. O desejo não é o que preenche o vazio; é o que se produz ao redor dele.
Quando você pensa em 2026, quantos dos seus chamados “desejos” são, na verdade, respostas ao olhar do Outro? E aqui o Outro não é apenas uma pessoa concreta, mas o conjunto de vozes que nos atravessam: família, cultura, redes sociais, expectativas de gênero, modelos de sucesso. A psicanálise lembra que o sujeito se constitui a partir dessas vozes e que, muitas vezes, tenta corresponder ao desejo do Outro antes mesmo de se perguntar o que o move de fato. Não é simples diferenciar o que você quer daquilo que aprendeu a querer para ser reconhecido.
O ideal de Eu constrói imagens de quem você “deveria ser” em 2026: mais produtivo, mais maduro, mais desapegado, mais “resolvido”. Esses ideais têm sua função, mas também podem operar como formas sofisticadas de silenciar o desejo. Quando você insiste em caber numa imagem perfeita de si mesmo, corre o risco de tratar o desejo como erro — tudo aquilo que não combina com o personagem que você montou para apresentar ao mundo. A pergunta psicanalítica é: o que sobra de você quando essas imagens caem?
Vivemos numa época em que o mandamento já não é mais “renuncie ao prazer”, mas “goze sem limites, aproveite tudo, seja feliz o tempo todo”. Esse imperativo de felicidade produz um paradoxo: quanto mais você tenta responder à exigência de aproveitar tudo, mais se sente em dívida com aquilo que não consegue viver. Para a psicanálise, esse excesso de gozo não esclarece o desejo; ao contrário, o embaralha. Há uma diferença importante entre “viver intensamente” e escutar o que, de fato, te falta.
Se você quiser saber algo sobre o seu desejo para 2026, talvez não baste olhar apenas para as metas. Vale prestar atenção também aos sintomas. Aquilo que se repete nas relações, o tipo de conflito em que você sempre acaba caindo, a angústia que aparece justamente quando tudo “deveria estar bem”: tudo isso fala de um modo de desejar. O sintoma incomoda, mas também é uma mensagem. A psicanálise se interessa menos pela promessa do “ano novo, vida nova” e mais por aquilo que insiste em ser o mesmo, apesar do calendário.
Existe uma fantasia bastante comum: a de que um dia você vai “descobrir” o seu verdadeiro desejo, como quem encontra uma vocação escondida ou um grande amor, e então tudo finalmente fará sentido. A psicanálise é mais sóbria. O desejo não é um tesouro oculto esperando ser revelado, mas um movimento contínuo, que se redesenha à medida que você se implica na própria história. Não existe um desejo definitivo para 2026; existe, sim, a possibilidade de se responsabilizar um pouco mais pelo modo como você já deseja hoje.
Em vez de perguntar apenas
“o que eu quero para o ano que vem?”,
talvez valha experimentar duas questões — um pouco desconfortáveis:
– O que, na minha vida, eu tenho repetido contra mim mesmo?
– E que lugar eu ocupo, sem perceber, no desejo dos outros?
Talvez a sua relação com 2026 não mude por uma resolução de fim de ano, mas por um trabalho contínuo de leitura dessas repetições.
