Terapia com chatGPT?

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Nos últimos tempos, tornou-se comum perguntar se conversar com o ChatGPT não seria, de algum modo, parecido com falar com um terapeuta ou psicólogo ou psicanalista. Afinal, em ambos os casos há palavras que se encadeiam, respostas longas, certo efeito de surpresa. Mas essa semelhança é apenas superficial. A diferença não está no uso da linguagem, e sim no que move essa linguagem, no modo como ela se interrompe e no efeito que produz.

Na psicanálise, a fala se organiza a partir da associação livre. O paciente é convidado a dizer tudo o que lhe vem à cabeça, sem censura. Isso não é espontaneidade ingênua nem catarse. É um afrouxamento do controle consciente do discurso para que apareçam lapsos, repetições, silêncios, risos fora de lugar — sinais de uma lógica que não é racional nem voluntária, mas inconsciente. A fala, aí, é movida por desejo, por uma história singular, por pontos de gozo que escapam ao próprio sujeito.

Um modelo de linguagem como o ChatGPT também produz uma cadeia de palavras que parece fluir “sozinha”. Mas o motor é outro. Não há inconsciente, corpo ou fantasia. O sistema calcula, a cada passo, qual palavra é mais provável a partir de bilhões de textos já escritos. O que ele devolve não é um saber singular, mas a média estatística do que costuma ser dito sobre um tema — um saber coletivo, técnico, sem sujeito.

Essa diferença aparece de forma clara no modo como a fala se interrompe. Na clínica, a cadeia associativa não para por acaso: ela tropeça. Um silêncio abrupto, um esquecimento, um riso estranho, um “não sei por que disse isso agora”. Além disso, há o corte do analista — uma intervenção mínima, um silêncio sustentado, o fim da sessão — que transforma aquele ponto em acontecimento. O sentido que surge aí não fecha; ao contrário, abre uma pergunta e pode deslocar a posição do sujeito.

Já no ChatGPT, a parada da fala é efeito de limites técnicos e objetivos pragmáticos. O texto precisa concluir bem, ser coerente, dar sensação de resposta completa. O sistema aprende a fechar: introdução, desenvolvimento, conclusão. Em vez do furo no sentido, temos o bom acabamento.

Por isso, os efeitos são distintos. A psicanálise trabalha justamente onde a fala falha, se contradiz ou não consegue continuar “direito”. Num mundo saturado de discursos, feeds, notificações e respostas prontas, a clínica pode ser pensada como um tratamento do excesso de sentido pelo encontro com algo que não se deixa organizar tão facilmente — o Real. Não se trata de explicar tudo, mas de criar espaço para uma invenção singular.

Os modelos de linguagem fazem o oposto: suavizam falhas, apaziguam inquietações, organizam o simbólico em escala industrial. São ferramentas potentes e úteis, mas orientadas a fechar o sentido.

No fim das contas, conversar com um LLM produz um texto bem formado. Uma análise, quando chega ao seu termo, pode produzir algo muito diferente: não uma explicação final, mas um entusiasmo — a disposição de assumir, sem garantias, a autoria de um modo próprio de viver e responder ao que não tem resposta pronta.

Num tempo em que máquinas falam cada vez melhor, talvez a questão clínica decisiva continue sendo outra: onde a palavra falha, para de funcionar “bem” e começa a fazer sintoma. É exatamente aí que a psicanálise começa — e é justamente aí que, por projeto, a máquina não vai.

 

Imagem: Vilma Vilaverde